Foto by DamPara nós ocidentais, há em toda esta polémica das caricaturas de Maomet, muito de irracional, de fundamentalismo, de incompreensível. Não conseguimos entender o que move aquelas multidões. Porque se manifestam de forma tão violenta.
Para a maioria dos ocidentais, o problema é simplesmente o fundamentalismo religioso, e a forma como manipula os crentes. A maioria dos ocidentais, respondem a tais manifestações de uma forma redutora - entendendo que está em causa simplesmente a liberdade (de imprensa), campo onde o Estado Democrático Ocidental não pode intervir. No fundo, no fundo, vivemos o trauma de muitas décadas de absolutismo, fascismo e ditaduras.
Na verdade, sou daqueles que concordam que as manifestações são excessivas. Sobretudo, porque tendo as caricaturas sido publicadas em Setembro do ano passado, as manifestações soam a um instrumento de qualquer coisa. É como se alguém, quisesse provocar um choque com o Ocidente e tenha ido recuperar um pretexto a um baú já antigo.
Se as reacções fossem imediatas - provalmente a minha opinião seria diversa. Estas reacções ao retardador soam-me como algo esquisito...
Mas não as desvalorizo, nem subestimo a inteligência de quem as tem.
Não nos julguemos, nós ocidentais, os senhores da razão...
Temos o reverso da medalha...
Há umas semanas, por afazeres profissionais, fui obrigado a viajar até à Argélia. A princípio, torci o nariz...A maioria dos ocidentais associam erradamente o Margrebe, a tradições e hábitos ancestrais e irracionais.
Eu, aqui me penetencio por talvez ter sido um pouco contaminado pelo mesmo preconceito.
Desde então, voltei lá mais três vezes. Aos poucos fui-me dando conta do ridículo preconceito ocidental. A Argélia é um país que se recomenda. Organizado, disciplinado. O Povo poderia dar-nos lições sobre muitas matérias. Sobre o conceito de família. Sobre o valor da união. Enquanto ecoavam os chamamentos para as orações nas mesquitas - cinco por dia- o meu respeito foi crescendo.
As caricaturas são uma questão cultural, sim.
E enquanto nós ocidentais, não fizermos um esforço para atenuaramos o choque cultural, vão existir mais caricaturas. E amanhã não serão só as caricaturas.
Porque quando um Povo se quer indignar e quer queiramos, quer não, tudo tem na sua génese o drama do Povo Palestiniano, basta um pretexto...